segunda-feira, 10 de abril de 2017

O dolo do vício

O consumidor de drogas ilícitas precisa tomar ciência de que financia a carnificina dos latrocínios, homicídios, feminicídios... 80% dos presos no sistema carcerário estão lá por causa do tráfico de drogas. Fato que passa à margem da consciência dos consumidores. Os cocainômanos pingam sangue pelo nariz e pelas mãos. Os maconheiros queimam erva, neurônios e o filme da coerência quando, de forma hipócrita, reclamam da violência enquanto tragam baseados. E como há autoridades, celebridades e formadores de opinião nesse grupo! Uma cultura hedonista e destrutiva tão antiga quanto a corrupção no país. Silenciar é omitir-se. E a omissão dos bons, favorece os maus. Todos os dias perdemos aliados nessa guerra contra a violência. Soldados armados com honestidade, coerência, retidão, tolerância, serenidade, persistência, prevenção, coragem e bondade. Esse campo de guerra não tem lado, pois é um círculo. O círculo social e familiar onde os cidadãos alienados precisam ser salvos e regenerados. Não exterminados e suas cinzas varridas para debaixo do tapete como muitos pregam.  O conceito de "usuário de droga - problema de saúde pública" se aplica mais aos consumidores de crack que sofrem com a vulnerabilidade social e a impossibilidade de boas escolhas. Os drogados possuem livre arbítrio para largar o vício. O dolo da permanência no vício está condicionado a fatores com maior ou menor gravidade que transitam entre a ignorância, a alienação, o comodismo e a dependência química. Cada situação tem seu nível de responsabilidade social. Detalhes que a lei a das drogas não contempla e precisam ser debatidos quando se pensa em legalização ou descriminalização.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A SUPER LUA TRUCADA

A primeira foto é uma montagem com as outras duas. Não há como registrar duas intensidades tão distintas de luz em apenas um clic. São necessários ajustes manuais diferentes na câmera. Para fotografar a lua com os detalhes de relevo da superfície lunar é preciso uma lente teleobjetiva e escurecer a cena, diminuindo o ISO e fechando o diafragma. Para fotografar a cidade noturna é preciso clarear a cena, aumentando o ISO, abrindo o diafragma e usar uma lente panorâmica. Não é ficção. É a mesma lua, quase ao mesmo tempo, mas a montagem impressiona mais! Maquiagem... Simulacros... Factóides... Simulações... Representação dramatúrgica ... A ética é que regula a largura desse limite, às vezes tênue, às vezes largo, entre verdade e mentira. Ilusão e realidade. Que esta minha reflexão diante da super lua clareie caminhos!




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terça-feira, 8 de novembro de 2016

A TRUCAGEM NA CRISE

A indústria e o comércio nos sacaneiam pra manter os lucros elevados. A bala de goma (jujuba) está menor. O rolo de papel higiênico vem amassado, pra ganhar espaço no transporte e nos estoques. A distância entre as poltronas no avião foi reduzida para vender o "conforto" de poucos centímetros. Não vou me surpreender se as companhias oferecerem aluguel de joelheiras! Nos restaurantes à quilo eu meço a honestidade do estabelecimento pelos pratos nitidamente reaproveitados. Arroz com brócolis, bolinhos de arroz, peixe, carne e legumes... Bife ao molho pardo, carreteiro de churrasco, qualquer coisa à milanesa... Truques de economia perigosos para a saúde. E as águas "aromatizadas"? Me parecem readaptações daquele refrigerante enjoativo de limão que ninguém bebia. Pois os gênios da química alimentícia diminuíram a quantidade do licor e do gás, aumentaram a quantidade de água e criaram um produto novo, mais caro, claro! O desperdício é outra ferramenta da ganância. Os tubos de xampu estão cada vez mais altos e estreitos, pra tombarem e vazarem facilmente. Os sabonetes nacionais de boutique não duram tanto quanto os importados, embora custem o mesmo preço. Até a tampa do tubinho azul de colírio está com um milímetro a mais de espaço por dentro, pra acumular gotas extras que vazam quando é aberto. O conteúdo dura metade do tempo. O picote na caixa de sabão em pó está cada vez maior. Minha avó me ensinou a perceber estes truques. Lições práticas que tive há quase 40 anos. Com uma faquinha de serra ela cortava uma pequena pirâmide triangular na quina da caixa de RINSO. O sabão em pó durava muito mais. Saudade daquela véia esperta! Falando em triângulo... Até o TOBLERONE inglês já aderiu à trucagem.

domingo, 13 de março de 2016

O GAITEIRO DO CHATÔ


Três meses após a estreia nos cinemas nacionais,  Chatô - O Rei do Brasilacaba de ser disponibilizado no NetflixA maioria sabe que o filme dirigido pelo ator Guilherme Fontes demorou duas décadas para ficar pronto. Um rosário de problemas. Desde a desvalorização do Real, em janeiro de 1999, até irregularidades com prestações de contas e processos judiciais. Por tudo isso, Chatô se transformou na mais polêmica produção cinematográfica nacional já bancada pela lei Rouanet. 

Os fotogramas abaixo são de uma cena do filme, bem especial para mim. Foi gravada em 1997, no jardim do atual Museu da República, no Rio de Janeiro. É o mesmo prédio do antigo Palácio do Catete, sede do poder executivo até a mudança do Distrito Federal para Brasília, em 1960. Era o Planalto da época, só que tinha "presidento". Foi nesse palácio que Getúlio Vargas se suicidou após governar o país por dois períodos que somados chegaram há 18 anos e meio de poder. Duas ditaduras. Só que uma disfarçada. Dizem que o atual governo quer quebrar esse recorde. E tudo indica que irá conseguir, pois não se criam mais políticos suicidas como antigamente! De volta ao assunto...
Na cena em questão, Getúlio Vargas, interpretado pelo ator Paulo Betti, recria uma passagem histórica de Vargas durante sua chegada ao poder em 1930: A queima das bandeiras dos estados. É nesse contexto que se desenrola a trama de ciúmes entre “Chatô”(Marco Ricca) e a bela Vivi Sampaio (Andrea Beltrão). Repare nos símbolos da cultura gaúcha presentes na cena. O chimarrão na mão de GV... Depois um copo de vinho... A bandeira tricolor gaúcha, no fogo... E um gaiteiro, com seu instrumento, chapéu, lenço vermelho e uma mala de garupa listrada e vazia, atirada sobre o ombro esquerdo. 

É... Em 1997 eu estava entre os figurantes do filme. O único gaúcho autêntico e vestido como tal naquele momento. Modéstia à parte, afinal este é o nosso mais famoso defeito! Mas reconheço que, se não fossem os fotogramas capturados, ninguém perceberia minha presença ou me reconheceria. 
Na época em morava no Rio de Janeiro havia quatro anos. Trabalhava como repórter. A mesma profissão de Assis Chateaubriand antes de virar o primeiro barão da imprensa brasileira. Nas horas de folga, eu tocava violão em barzinhos da noite carioca para reforçar o minguado salário de jornalista sem fama. Naquele tempo, era raro repórteres usarem barbinha e textos lúdicos para chamar a atenção. Somente a notícia era a vedete. 

A minha minúscula aparição em Chatô começou assim: Um amigo que trabalhava na captação de áudio direto das cenas me bipou. Explico: Mandou uma mensagem para o pager, aparelhinho tataravô dos torpedos SMS e que se usava preso à cintura. Na época, pouca gente podia comprar um celular tijolo. A mensagem dizia: “Tchê, tu sabe tocar o Hino Riograndense? Me liga.” Liguei e descobri que o diretor do filme precisava gravar uma cena em que um grupo de normalistas (meninas estudantes e de boas famílias... e modos!) cantaria o hino Riograndense para Getúlio Vargas. Uma adaptação dramatúrgica do famoso momento histórico da cremação das bandeiras estaduais durante o Estado Novo, e que ocorreu perto dali, na antiga praia do Russel, na Glória.

Incentivado pela promessa de um modesto cachê, peguei meu violão e corri para o set de filmagem. Reuni as cantoras. Eram dez. Aparecem de costas, ao lado do gaiteiro, na imagem feita do alto. Ensinei o hino e ensaiamos por cerca de uma hora. “Como aurora precursora, do farol da liberdade...” Ao final do trabalho, o diretor Guilherme Fontes apareceu para ouvir e aprovar a cantoria. Antes de voltar para as demais tarefas, o diretor se virou e deu início a um diálogo comigo que foi mais ou menos assim:
- Você é gaúcho mesmo?
- Sim.
- Tens aquela roupa típica... Como é que chama mesmo?
-Pilcha.
- ãh?
- Pil-cha! Bota, bombacha, guaiaca, lenço, chapéu... Tenho tudo em casa.
- Onde cê mora?
- Tijuca.
- Corre lá então e pega a roupa. Preciso de um tocador de acordeon no filme.
- Um gaiteiro? (É assim que se fala no sul). Mas não sei tocar gaita. Só violão!
- Não tem problema. A gente dubla. Só precisa segurar a sanfona.
- Gaita!
- Isso. Corre lá. Começamos a gravar em uma hora.
- Tem outro cachê?
- Tem.
Peguei o metrô no Largo do Machado. Fui num pé e voltei no outro. Pilchado até os dentes, em plena Praça Saens Peña, na Tijuca. Cheguei de volta no começo da tarde. A tal cena do gaiteiro e outros “gaúchos” e militares saudando a chegada de Getúlio Vargas ao poder só ocorreria à noite. Eu e dezenas de figurantes tomamos um chá de banco. Mais de 8 horas de espera. Nesse meio tempo, 
habilitado pela respeitosa pilcha,  , me atrevi a dar palpites ao ator Paulo Betti sobre a sonoridade artificial da letra “L” na palavra “Brasil” e a falta de jeito dele na hora de tomar um mate. Aquela bomba o tempo todo no canto da boca, como se fosse um cachimbo, não cairia bem aos olhos da patrulha tradicionalista. Cordial, o prestigiado ator agradeceu. O "Brasillll" não mudou. E a cuida de chimarrão só apareceu na mão do presidente.

A cena foi rápida. Três ou quatro takes. O diretor pedia: “alegria, alegria!” E eu "me puxando", sinônimo "gauchês" para "se esforçando". Abria e fechava o fole da gaita com um sorriso de orelha a orelha. Mais faceiro que o Gaúcho da Fronteira tocando “Vaneirão Sambado” no Xou da Xuxa. Mas essa cena exagerada não entrou na edição final do filme e nem a cantoria do Hino Riograndense. Valeram apenas as cenas em que o gaiteiro em pose discreta, compenetrado, acena a cabeça em concordância com o Presidente Vargas e canta o Hino Nacional ao lado da formosa Vivi Sampaio e militares integralistas. 

Sobre os cachês... Eles demoraram, mas foram pagos depois de meses. Quase 20 anos se passaram. Na exibição do filme, eu estava lá, na plateia do cinema. Sensação estranha essa de correr os olhos pelos figurantes e se reconhecer bem mais jovem em uma imagem inédita. É como reencontrar uma foto antiga que você não lembrava que havia tirado. Pensei em fazer um alarde para os amigos:

–Indiada, eu apareço no filme Chatô!
Mas ao ver-me em cena, debruçado sobre a gaita que entrou muda e saiu calada, mais quieta que criança borrada, concluí: Melhor não alarmar os gansos a respeito de minha tacanha contribuição alegórica. É evidente que a edição rápida e o foco privilegiaram os artistas. É preciso muita força de vontade e atenção para me localizar em cena. Agora no Netflix, fica mais fácil. Pode-se pausar e retornar. Mas mico é mico. Por menor que seja, vira King Kong. Os amigos-da-onça estão se divertindo com a história de minha “brilhante” figuração em Chatô - O Rei do Brasil. Até inventaram que a produção do filme teria tido problemas com o TCU por conta dos gordos cachês pagos ao gaiteiro de cinema mudo.


quinta-feira, 27 de março de 2014

Vício Nacional

 A telenovela brasileira já foi bem melhor. Teve conteúdo e autenticidade. Foi celeiro de escritores e artistas teatrais.  Agora só reedita clichês, renova carinhas bonitas e corpos sensuais. Chamar este produto de "novela" é subverter e desclassificar o estilo literário. 

Dia desses revi um capítulo de "Água Viva", em reprise num canal a cabo. Em cena, o falecido Raul Cortez, que sempre me fez vê-lo como um ovo falante. Esta era a imagem em ação que eu formava na minha cabeça infantil, na época em que a telenovela foi exibida pela primeira vez. Talvez, por deter tamanha expressão natural no rosto, o ator abusava do recurso das pausas dramáticas teatrais. Silêncios para o espectador imaginar o pensamento da personagem. Outras feras da dramaturgia também o faziam. Uma época boa em que imaginar e ver televisão ao mesmo tempo, era possível.
Hoje, não! A edição é clipada. Frenética. O espectador, hipnotizado. Travado no sofá e longe do controle remoto. O que interessa para as emissoras é manter o aparelho ligado para dar audiência. Na novelinha idiota, as personagens pensam em voz alta e o espectador passional ou inocente, reproduz este comportamento, automaticamente.

Tudo muito bem pensado na lógica comercial. Os comandantes de programação de TV são inteligentes e não brincam em serviço. Treinados em neurolinguística. Inteligência emocional. Análises de discurso. Mestres na arte mambembe de fantoches e ventriloquia. E manipulam bem...

Reparo que as pessoas viciadas em folhetins televisivos costumam narrar os fatos corriqueiros do cotidiano: "Bem... entrou o comercial da novela... Vou na cozinha tomar minha água porque estou com sede e vou ao banheiro fazer xixi porque a bexiga tá cheia e esse sofá me dá dor nas costas..."  Falam tudo o que pensam. Agregam importâncias a coisas corriqueiras. Riem e choram com melodramas rasteiros e bobos.

E os comportamentos neuróticos e histéricos dos adolescentes? Artistas amadores que ainda não dominam a arte da representação, interpretam nervosismo com gritos e xingamentos. Os diretores não percebem ou fazem vista grossa? A massiva exposição em rede nacional transforma estes projetos de atores e atrizes em toscas celebridades e exemplos a serem seguidos por adolescentes de todo o país. Para muita gente, trata-se de moderna lavagem cerebral e covarde ataque aos autênticos costumes regionais e interioranos.

Salvas exceções, a grande maioria dos renomados novelistas não demonstra ou admite preocupação com as consequências de suas tramas diabólicas. Estes novelistas debruçam-se sobre a licença poética da ficção como justificativa para incoerências. São escritores prestigiados. Afetados pela vaidade, a soberba e não raro os demais pecados capitais. Talvez por experiência própria, estes criadores de comportamento demonstram conhecer muito bem o submundo das sensações humanas. Chafurdam nos esgotos dos sentimentos perversos para desenterrarem seus toscos personagens. Os novelistas tem poder. Assim como os marqueteiros políticos, reinventam um mundo de mentiras que, a posteriori, serão reproduzidas e assimiladas como verdade pelas parcelas incautas da população. 
Exagero? 
Esta é uma obra de realidade. Qualquer semelhança com a ficção não é mera coincidência.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Das cavernas às nuvens

Onde? Do lado de fora da caverna! Logo que saí não me contive. Fui desbravar. O que eram aqueles rabiscos e relevos na rocha? Como foram feitos? Quando? Por que e por quem? Demoraram muitas eras mas conseguimos identificar os caracteres. Uma vontade em compartilhar razões e emoções. E nasceu a linguagem escrita. E Fiat Lux! As ideias brotaram diante dos sentidos. Organizaram-se em mensagem, partiram em caravanas para ligar emissores a receptores. Nem sempre encontraram nexo, sentido, lógica, coerência, sensatez. Mas houve quem extraísse a essência, convertesse um novo pensamento, palavra ou ação; para armazenar ou transformar. Quanto movimento evolutivo a leitura oferta na longa jornada do conhecimento!
Mas e a criação individual? Quem de fato detém o saber? O reconhecimento pertence àquele que primeiro registrar a ideia, claro. O que seria da máquina capitalista sem royalties, patentes, direitos autorais? Surge numa inspiração pessoal aleatória ou é uma permissão de acesso aos arquivos acásicos para poucos credenciados? Toda a sabedoria está encerrada no plano das ideias, dizia Platão. Cada escritor, com seu esforço e merecimento alcança algum pedaço ínfimo desse imenso tesouro intangível e tão sublinhado de verdade. E não basta sair da caverna... É necessário coragem para enfurnar-se noutras!

Quantas vezes pensamos em algo interessante. Um verso... Uma melodia... Um conceito... Uma solução... Uma ideia “nova”, que por algum motivo deixamos para lá e não a materializamos ou convertemos em ação. O tempo passa e de alguma forma chega ao nosso conhecimento que alguém teve a mesma ideia, colocou em prática e alcançou o êxito com ela. Você já passou por esta sensação de que alguém teve a mesma sua ideia não foi compartilhada com ninguém? Quando acontece, logo surge a pergunta culposa: “Por que não coloquei essa ideia em prática antes?” Ser ou não ser? O único... O primeiro... O original autor... Especulo que isso acontece porque as ideias flutuam sobre nossas cabeças feito nuvens. Repousam não num minúsculo pedaço de silício, disco, fita, vinil, acetato... Rocha arcaica! Estariam num a inovadora substância não comprovada cientificamente mas apontada por muitas filosofias tão antigas quanto avançadas.  Uma espécie de éter prânico ionizado que nos reveste em camadas como se fôssemos Matrioshkas. Uma invenção do Grande Arquiteto do Universo onde todos os pensamentos ficam gravados com qualidade pra lá de sete dimensões! Espero um dia entender como tal mecanismo físico ocorre. 

A ciência tecnológica já engatinha na direção certa. A prova é a “nuvem”: Nova forma de armazenamento de dados digitais em rede, desenvolvida por um renomado fabricante de computadores que batizou o novo serviço de iCloud. Aliás... Nome copiado de um produto concorrente. Até tu, Brutus S. Jobs! Lavoisier esteja convosco!

terça-feira, 3 de setembro de 2013

pipas brancas não voam mais

O fim do inverno traz novos ares de alegria. Recordações de divertidas primaveras no meu tempo de guri. Nos anos setenta, as compras não vinham em saquinhos plásticos ecologicamente incorretos como hoje, mas em embrulhos de papel amarrados com linhas grossas de algodão. Aquela embalagem servia para carregar roupas, remédios, alimentos. Desfeitos os embrulhos, o cordão e o papel não iam imediatamente para o lixo. Na prática e de forma inconsciente, os moleques da época já experimentavam a sustentabilidade.

Os cordões e papéis eram reaproveitados no brinquedo favorito: A pipa. No Rio Grande do Sul chama-se “pandorga”. Não comprávamos os brinquedos prontos. Fabricávamos em casa. Dos embrulhos desfeitos, eu pegava os papéis encerados de pão, mais resistentes do que o papel jornal. A estrutura da pandorga era de varetas finas de taquara (bambú), amarradas com os cordões dos embrulhos. O papel era colado nas varetas com grude, cola artesanal feita com farinha de trigo. A água misturada ao glúten formava o gel viscoso que bem substituía a cola Tenaz.

A pandorga também tinha um rabo, feito de retalhos de pano. Era o peso dele que mantinha o brinquedo estabilizado no céu. Paradinho. O papagaio só decolava em dias de vento forte, o que era comum no clima temperado do sul. Uma brisa, não servia.  

Uma vez no céu, a pandorga despertava euforias. Para os mais racionais, o sucesso de um projeto bem elaborado e executado... O requinte tecnológico era o “roncador”. Um pedaço de papel solto de um lado e preso a uma linha do outro, que tremulava e emitia um ruído forte cada vez que se puxava a pandorga com força. “vruuummmm... vruuummmm”. Parecia um pequeno motor!  

Para os mais emotivos, a posição privilegiada da pandorga estabilizada no ar despertava variadas divagações. A possibilidade de voar...  A curiosidade em ver a paisagem do alto...  A própria estrela sob domínio da mão... A imaginação querendo arrebentar a linha e seguir para além do horizonte...

O que menos passava em nossas cabeças infantis era guerrear! Uma pipa derrubar a outra? Isso não era brincadeira de bom gosto nem inocente. As pipas brancas (todo o pão vinha em papel branco),lado a lado. Cada uma com seu sonho respeitoso! E a paz era garantida pela linha de algodão. Puro. Sem misturas. Os cordões dos embrulhos eram emendados uns aos outros. Só quem possuía melhores condições financeiras podia comprar um rolo inteiro, com 100 metros de linha nova.

A gurizada do meu tempo não achava graça em destruir o brinquedo do outro em guerras de pipas com linhas cortantes. Isso não existia no meu grupo de amigos e não lembro de ter visto tal brincadeira perigosa durante minha infância no Rio Grande do Sul. Era um tempo de pais presentes, sempre alertas às nossas possíveis inconsequências.

Logo que me mudei para o Rio de Janeiro, há vinte anos, percebi que as pipas daqui eram diferentes no jeito e no conceito. No clima subtropical venta menos.  As estruturas são bem menores, mais leves, coloridas e inquietas. Mas o que mais assusta é o uso frequente da mortal linha cortante. Nas áreas mais pobres da cidade, me assombrou ver o céu infestado de pipas conduzidas não só por crianças mas por adolescentes e até adultos viciados em infância... E algo mais!


Hoje. sempre que um ciclista, motociclista ou “homem asa” vira notícia após ser degolado por uma linha assassina, aumenta minha certeza de que as pipas não são mais pacíficas. O tempo de ingenuidade voou para longe, emaranhado no rabo de pipas perdidas em dia de vendaval. Foram pervertidas pela violência. Viraram armas no meio dos "pipas voadas". Uma “peça” perigosa que dispara navalhas perdidas. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Mentira


Máscara neolítica - 7.000 a.C.


A mentira é tão antiga quanto o desejo de alcançar e manter o poder. Os dois se retroalimentam em motoperpétuo. A sociedade se compraz na falácia, na fofoca, no ti-ti-ti. A máscara e o personagem seduzem os incautos. De fato, a realidade é cruel para muitos e fugir dela é uma necessidade. Na alienação, o hedonismo grita por pão e circo.

Dia destes sentei em frente ao iluminado retângulo alienante e busquei pela verdade nos conteúdos da TV aberta. Encontrei vestígios num telejornal de prestígio ancorado por um publicitário que fazia caras e bocas para chamar as reportagens. Nada de novo. A realidade numa versão leviana, superficial, adornada pela estética visual cinematográfica. Noutro canal, (de esgoto noticioso) o apresentador vociferava contra os direitos humanos e pregava a pena de morte com o dedo em riste. Parecia candidato político.

Zap! Noutro canal, algo não me cheirou bem. Um repórter se ufanava por ter conseguido uma matéria exclusiva sobre um fato “sensacional”! O banal flagrante de um tiroteio entre policiais e traficantes. Imediatamente recordei de um costume terrível das chefias de reportagem, que na falta de assunto, ligavam para algum batalhão da PM e arranjavam uma operação às pressas, na favela mais próxima. Sempre odiei esta farsa e nunca aceitei este circo, o que me valeu fama de “derrubador de pautas”.

Adulteração dos fatos? Pior! Fabricação de notícias! Tiroteios são fáceis de serem simulados e os policiais nem precisam prestar conta das munições utilizadas no suposto bang-bang. O som das rajadas de fuzil pode facilmente ser adicionado à narrativa na hora da edição ou até mesmo durante a gravação da reportagem. Basta um smartphone com internet. No Youtube existem milhares de vídeos demonstrativos de fuzis. É só encontrar um, colar o autofalante do telefone no microfone e ”dar play”. Touf ,touf, touf, touf, touf... “Tiros... Tiros... tiros... Abaixa aí... É fuzil... HK 47... Kalashnikov... russo... o mesmo do filme Senhor das Armas!”, grita o ofegante repórter novato e muito bem intencionado na carreira de mentiras. Para os desavisados, iria parecer bem real! Que jornalista não conhece algum colega capaz deste simulacro para garantir um “furo” e turbinar telejornais trash news, onde o conteúdo é escravo da pesquisa instantânea de audiência coletada através de amostragens pífias, secretas e nunca fiscalizadas.

A cada troca de canal, novas sentenças falsas, afirmativas levianas, ilusões. O intervalo comercial é um show de propagandas enganosas. O que seria do marketing sem o “caô”. A presepada. Alguém acredita em desodorante que proteja 24 horas? Falar de graça ao celular? Instituições bancárias que garantem o futuro? Lorotas sem fim! E tem gente que acredita. A ingenuidade é terra fértil pra mentira.

Zapeei novamente e fui parar num programa de auditório. O cantor se esforçava pra impressionar o público num evidente playback. A encenação do instrumentista no palco para dublar o som gravado em estúdio beirava o ridículo. Todos os artistas simulavam performances. E este recurso ainda é amplamente utilizado.
As novelinhas então... Não vale a pena ver de novo os mesmos estereótipos de sempre. A megera, o bufão, o pilantra, o homoafetivo, a prostituta, o mocinho narcisista...

Tanta gente adora mentira. Tanto, que acredita nela. Falsários que até ensinam aos filhos que mentir é preciso. Um dia destes, um estudante de jornalismo me disse que não via vantagem em ser honesto e falar a verdade. Minha primeira reação foi parabenizá-lo pela revelação contraditória. Ele acabara de assumir uma verdade escondida ou negada pela maioria. Convidei o “corajoso” e o restante da turma para a seguinte reflexão: Quando você adoece, gostaria de ser atendido por um falso médico? Quando o carro estraga, você pede ajuda para um mecânico fajuto? Quando você vai ao restaurante, suportaria saber que aquele arroz de brócolis é reaproveitamento de comida dos dias anteriores? Imagine morar num edifício projetado com cálculos mentirosos, custos superfaturados, material de má qualidade. A tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria, os desabamentos dos edifícios Palace II e Liberdade no Rio de Janeiro; ou o recente prédio do Magazine Torra-Torra, em São Paulo. Imperícia, imprudência, negligência. Seja qual for a causa principal, a mentira estará sempre por trás. Quantos fatos tristes se repetem por causa da falsidade?
As leis que regem a natureza tem a verdade como essência e a ela devemos voltar.


 "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"- João 8:32

terça-feira, 3 de julho de 2012

O BARCO DO SHOPPING






Fantasy: Este belo iate atracado na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, ao lado do Lady Laura IV, do cantor Roberto Carlos,  é uma dos mais luxuosos do mundo. Não tanto quanto o do Rei, mas parecido. Brinquedinho de outro artista? Certamente. O Iate pertence ao empresário  José Isaac Peres, presidente da Multiplan - dona de 13 shopping centers em todo o Brasil.

A lancha tem trinta e um metros de comprimento. Modelo Azimut 105. Uma nova custa cerca de 18 milhões de reais. Não tenho dúvida de que tal jóia dos mares foi comprada com a nossa compulsória contribuição. Sim, nós motoristas que pagamos o abusivo valor de estacionamento nos centros comerciais do grupo. 

Um breve cálculo revela a facilidade com que o dono do negócio acumula rapidinho a montanha de dinheiro necessária para comprar o iate. O estacionamento do Barra Shopping possui 4 mil vagas. O período de duas horas custa 8 reais. Levando-se em conta a alta rotatividade, certamente capaz de lotar o estacionamento várias vezes durante as 12 horas de atividade do shopping, pode-se chegar ao montante diário de 192 mil reais.  Limpinho. Sem imposto. 

Concluímos que o estacionamento do Barra Shopping no Rio, pode bancar uma nova embarcação luxuosa deste modelo a cada três meses!

Fica fácil deduzir porque a cobrança imoral ainda não foi cassada na justiça, apesar de tantas reclamações e disputas nos tribunais. Os estacionamentos são tesouros a céu aberto! E sabemos o quanto o poder econômico pode manipular decisões judiciais. É.. O mar está cada vez mais para peixe grande, corsários de luxo e pirata do martelo de pau.



fotos: 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O Leão e o Cafezinho

Dois leões fugiram do Jardim Zoológico.

Na fuga, cada um tomou um rumo diferente.

Um dos leões foi para as matas e o outro foi para o centro da cidade.

Procuraram os leões por todo o lado, mas ninguém os encontrou.

Depois de um mês, para surpresa geral, o leão que voltou foi
justamente o que fugira para as matas.

Voltou magro, faminto, alquebrado.

Assim, o leão foi reconduzido à sua jaula.

Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrou do leão que fugira
para o centro da cidade, quando um dia, o bicho foi recapturado.

E voltou ao Jardim Zoológico, gordo, sadio, vendendo saúde.

Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para a floresta
perguntou ao colega:

- Como é que conseguiste ficar na cidade esse tempo todo e ainda
voltar com saúde? Eu, que fugi para a mata, tive que voltar, porque
quase não encontrava o que comer...

O outro leão então explicou:

- Enchi-me de coragem e fui esconder-me numa repartição pública. Cada
dia comia um funcionário e ninguém dava por falta dele.

- E por que voltaste então para cá? Tinham-se acabado os funcionários?

- Nada disso. Funcionário público é coisa que nunca se acaba. É que eu
cometi um erro gravíssimo. Já tinha comido o director geral, dois
superintendentes, cinco adjuntos, três coordenadores, dez assessores,
doze chefes de secção, quinze chefes de divisão, várias secretárias,
dezenas de funcionários e ninguém deu por falta deles! Mas, no dia em
que comi o desgraçado que servia o cafezinho... Estraguei tudo!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

10 lições japonesas


1 – A CALMA
Nenhuma imagem de gente se lamentando, gritando e reclamando que “havia perdido tudo”. A tristeza por si só já bastava.

2 – A DIGNIDADE
Filas disciplinadas para água e comida. Nenhuma palavra dura e nenhum gesto de desagravo.

3 – A HABILIDADE
Arquitetos fantásticos, por exemplo. Os prédios balançaram, mas não caíram.

4 – A SOLIDARIEDADE
As pessoas compravam somente o que realmente necessitavam no momento. Assim todos poderiam comprar alguma coisa.

5 – A ORDEM
Nenhum saque a lojas. Sem buzinaço e tráfego pesado nas estradas. Apenas compreensão.

6 – O SACRIFÍCIO
Cinquenta trabalhadores ficaram para bombear água do mar para os reatores da usina de Fukushima. Como poderão ser recompensados?

7 – A TERNURA
Os restaurantes cortaram pela metade seus preços. Caixas eletrônicos deixados sem qualquer tipo de vigilância. Os fortes cuidavam dos fracos.

8 – O TREINAMENTO
Velhos e jovens, todos sabiam o que fazer e fizeram exatamente o que lhes foi ensinado.

9 – A IMPRENSA
Mostraram enorme discrição nos boletins de notícias. Nada de reportagens sensacionalistas com repórteres imbecis. Apenas calmas reportagens dos fatos.

10 – A CONSCIÊNCIA
Quando a energia acabava em uma loja, as pessoas recolocavam as mercadorias nas prateleiras e saiam calmamente. Nenhum arrastão contra o povo ou para roubar o comércio.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Diálogo durante o reinado de Luís XIV


Colbert - ministro de Estado e da economia do rei Luiz XIV

Mazarino - Cardeal e estadista italiano que serviu como primeiro ministro na França. Ele era um notável coletor de arte e jóias, particularmente diamantes, e ele deixou por herança os "diamantes Mazarino" para Luís XIV em 1661, alguns dos quais permanecem na coleção do museu do Louvre em Paris


Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível.
Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me
explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...

Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro.
E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criam-se outros.

Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E então os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: Então como havemos de fazer?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente!
Há uma quantidade enorme de gente situada entre os ricos e os pobres:

São os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres.
É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais!
Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para  compensarem o que lhes tiramos.
É um reservatório inesgotável.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O mito do 13º




Ingleses e britânicos não costumam colocar 13º andar em seus edifícios. Qualquer semelhança com o décimo terceiro salário por lá, não é mera coincidência.  Ingleses e americanos recebem ordenados semanais. 
No Brasil, embora a CLT determine o pagamento de13º salário para os trabalhadores com carteira assinada, o tal salário extra, na realidade não existe. É uma ilusão aritmética. Quer ver? Vamos aos cálculos.

Imagine um trabalhador que recebe 1000 reais por mês. Em um ano, o faturamento dele é de 12 mil reais. 

Somando-se o 13º, o salário anual passa para 13 mil reais.

Agora, se refizermos os cálculos por semana trabalhada, teremos uma diferença no salário anual. 

1000 reais é o equivalente a quatro semanas de trabalho a 250 reais. 

O ano possui 52 semanas. (365 : 7 = 52,...)

Agora a mágica: Se multiplicarmos 250 reais por  52 semanas obteremos 13 mil reais!
O mesmo valor de 13 meses de salário.

Moral da história: 13º salário não existe. O empregador apenas devolve o que deixou de pagar durante o ano.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

IMPRENSA MILITANTE

       
Trechos do artigo de Silvio Waisbord, professor de Jornalismo e Comunicação Política na  George Washington University, publicado no La Nacion
            
O que é jornalismo militante? É o que defende um governo ou partido independente dos erros? É ideologicamente puro ou é uma criatura da realpolitik disposta a tolerar qualquer negociação política? É o jornalismo que informa sobre questões que estritamente combinam com a agenda política de um governo?
            
A ideia de um jornalismo militante como apêndice de um governo é problemática para a democracia, que não precisa de uma imprensa que sirva de porta-voz de nenhum oficialismo. Idealmente, o jornalismo deve ser cético frente ao poder e não ser crítico apenas segundo a cor política ou ideológica de quem detém o poder. Deve mostrar os dados da realidade porque os governos tendem a produzir e crer nas suas próprias realidades.
           
Deve investigar o governo porque o poder quase sempre mantém lugares obscuros. Deve estimular os cidadãos a conhecer o que ignoram, em vez de confirmar suas pré-concepções militantes. Deve incrementar oportunidades para a expressão da cidadania e organizações da sociedade civil e não ser ventríloquo dos que estão rodeados de microfones.
           
Como destacou Walter Lippmann, um dos colunistas mais influentes nos EUA durante o século passado: "Sem jornalismo crítico, confiável e inteligente, o governo não pode governar". O melhor jornalismo não é aquele que marcha perfilado ao governo. A última década da imprensa mundial confirma que o bom jornalismo não joga rosas na passagem das autoridades ou varre a sujeira para debaixo do tapete da lealdade com o governo.
 A diferença é informar com base no compromisso com os princípios democráticos – igualdade de direitos, a tolerância à diversidade, respeito às diferenças de opinião, acesso a oportunidades de expressão, responsabilidade, transparência na utilização dos recursos públicos, ampla participação – ou a adesão a governos da vez e plataformas partidárias. As experiências de outras democracias mostram que o "jornalismo militante" privilegia a opinião em detrimento dos dados.

Em todo o mundo, o jornalismo não é uma ilha, mas parte de complexas redes de informações, políticas e econômicas. A autonomia do jornalismo, tão celebrado da esquerda a direita, na realidade, é difícil.

Outra questão sensível é o financiamento do "jornalismo militante". Quem paga pela produção diária de notícias, informação e opinião? Vejamos as opções. A escolha pelo velho jornalismo partidário, em vias de extinção no mundo, vem sendo financiada pelas grandes estruturas políticas.

A última década, com acesso gratuito a sites de notícias na Internet, confirma que o público leitor é pouco disposto a pagar mesmo quando lê religiosamente, e depende de certos meios para a sua dieta cotidiana de notícias. Somos um mundo ávido por notícias, mas sem interesse de pagar pelo custo de produção, nem mesmo uma contribuição monetária mínima. Outra possibilidade, atualmente em discussão nos Estados Unidos e algumas democracias europeias, é a filantropia como suporte do jornalismo. Por enquanto, isso não parece viável.

As possibilidades restantes são aquelas clássicas que têm sustentado financeiramente a imprensa na América Latina: publicidade, fortunas pessoais e fundos públicos gerenciados pelo governo. Se for a publicidade, como conciliar interesses comerciais com militância política? A publicidade militante? O capitalismo partidário? Se forem as fortunas pessoais, é possível imaginar que os interesses individuais dos magnatas nem sempre coincidam com a mística e a ideologia militante. E as fortunas pessoais investidas nos meios de comunicação são propensas a crises econômicas e acordos políticos pontuais.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A Raposa




Um lenhador acordava todos os dias às 6 horas da manhã e trabalhava o dia inteiro cortando lenha, só parando tarde da noite. Ele tinha um filho lindo de poucos meses e uma raposa, sua amiga, tratada como bicho de estimação e de sua total confiança. Todos os dias, o lenhador, que era viúvo, ia trabalhar e deixava a raposa cuidando do bebê. Ao anoitecer, a raposa ficava feliz com a sua chegada. Sistematicamente, os vizinhos do lenhador alertavam que a raposa era um animal selvagem, e, portanto, não era confiável. Quando sentisse fome comeria a criança. O lenhador dizia que isso era uma grande bobagem, pois a raposa era sua amiga e jamais faria isso. Os vizinhos insistiam:
-Lenhador, abra os olhos!
-A raposa vai comer seu filho.
-Quando ela sentir fome vai devorar seu filho! Um dia, o lenhador, exausto do trabalho e cansado desses comentários, chegou à casa e viu a raposa sorrindo como sempre, com a boca totalmente ensangüentada. O lenhador suou frio e, sem pensar duas vezes, deu uma machadada na cabeça da raposa. A raposinha morreu instantaneamente. Desesperado, entrou a correr no quarto. Encontrou seu filho no berço, dormindo tranqüilamente, e, ao lado do berço, uma enorme cobra morta. O Lenhador enterrou o machado e a raposa juntos. Moral da história: Se você confia em alguém, não importa o que os outros pensem a respeito, siga sempre o seu caminho e não se deixe influenciar. Quantas amizades já foram desfeitas, lares destruidos, quantos mal entendidos, tudo por causa da influência e do julgamento de outras pessoas. Por isso, nunca tome decisões precipitadas, nada melhor do que o diálogo, ainda que você encontre a "raposa" com a boca cheia de sangue...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A montanha desce a Maomé

Finalmente, no Rio de Janeiro encontraram a solução para ensinar matemática, a base teórica é de Vigotski com apoio básico de Paulo Freire: o educando deve partir de sua base de conhecimentos, ser confrontado com sua história e, com a ajuda do professor, o grande mediador (nunca o que ensina), desvelar o mundo em que vive e superar criticamente os velhos conceitos e chegar a ser sujeito de sua própria história (sabe-se lá o que quer dizer isto!). Outrossim, o grande drama da avaliação acaba. Podemos copiar a ideia.


Este exame mostra como os docentes devem se adaptar aos tempos atuais para cativar a atenção dos alunos.


Prova de matemática

Nome do aluno:______________________________________________ NOTA: _____ 
Facção a qual pertence:_______________________________________
Turno:_____________


QUESTÕES

1.) Zarôio tem um fuzil AK-47 com carregador de 80 balas. Em cada rajada o Zarôio gasta 13 balas. Quantas rajadas poderá disparar até descarregar a arma? (1.0 Ponto)
R: _______________________

2.) Birosca comprou 10 gramas de cocaína pura que misturou com bicarbonato de sódio na proporção de 4 partes de pó para 6 de bicarbonato. A seguir vendeu 6 gramas desta mistura ao Cascudo por R$ 150,00 e 16 gramas ao Chinfra a R$40,00 cada grama. ENTÃO: (1.0 Ponto)
a) Quem é que comprou mais barato? Cascudo ou Chinfra?
b) Quantos gramas de mistura o Birosca preparou?
c) Quanto de cocaína contém essa mistura?
d) Qual é a taxa de diluição da mistura?
R: __________________________________________________________________________________

3.) Rojão é cafetão na Praça Mauá e tem 3 prostitutas que trabalham para ele. Cada uma delas cobra R$ 35,00 ao cliente, dos quais R$ 20,00 são entregues ao Rojão. Quantos clientes terá que atender cada prostituta para poder comprar ao Rojão a sua dose diária de crack no valor de R$ 150,00? (1.0 Ponto)
R: __________________________________________________________________________________

4.) Jamanta comprou 200 gramas de heroína que pretende revender com um lucro de 20% graças ao "batismo" da droga com giz. Qual é a quantidade de giz que ele terá que adicionar? (1.0 Ponto)
R: __________________________________________________________________________________

5.) Chaveta recebe R$ 500,00 por cada BMW roubado, R$ 125,00 por carro japonês e R$ 250,00 por cada 4X4. Como já puxou 2 BMW e 3 4X4, quantos carros japoneses terá que roubar para receber o total de R$ 2.000,00? (1.0 Ponto)
R: __________________________________________________________________________________

6.) Pipôco está na prisão há 6 anos por assassinato pelo qual recebeu o equivalente a R$ 5.000,00. A mulher dele está gastando esse dinheiro à taxa de R$ 50,00/mês. Quanto dinheiro vai restar para Pipôco quando sair da prisão daqui a 4 anos? (1.0 Ponto)
R: __________________________________________________________________________________

7.) Uma lata de spray dá para pichar uma superfície com 3 m². Uma letra grande ocupa uma área de 0,4 m². Quantas letras grandes poderão ser pintadas com 3 latas de spray? (1.0 Ponto)
R: __________________________________________________________________________________

8.) Chapão recrutou 3 prostitutas para a gang. Se o número total de prostitutas que trabalham para a gang é igual a 27, qual é o percentual de prostitutas recrutadas pelo Chapão? (1.0 Ponto)
R: __________________________________________________________________________________

9.) Durante uma rixa entre gangs, Maifrende disparou 145 balas com uma pistola 45 automática (de uso exclusivo das Forças Armadas) acertando 8 pessoas. Qual é o percentual da eficácia dos tiros do Maifrende? (1.0 Ponto)
R: __________________________________________________________________________________

10. ) Sapão é preso por traficar crack e a sua fiança foi estabelecida em RS 12.500,00. Se ele pagar a fiança e os honorários do seu advogado (que reclama 12% da fiança como pagamento dos seus serviços) antes de fugir para a Bolívia, qual será o total da despesa? (1.0 Ponto)
R: __________________________________________________________________________________ 


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Papo de maluco

“Sou classe média, anulo meu voto desde que tirei o título de eleitor e não me iludo com a falsa democracia que aí está. Não sou puxa-saco, tenho ficha limpa, pago meus impostos em dia e faço valer o meu direito de expressão.” Aquele estranho disse isso numa velocidade e melodia que me lembraram um repente nordestino. Só que sussurrado. Não tive escolha. Parei para ouvir aquele magricelo com cavanhaque e cabelos ripongos. Usava uma camiseta com uma bandeira do Brasil sendo engolida por devastadores ambientais. Eu havia acabado de sair da zona eleitoral de Copacabana onde acompanhei a votação de um dos candidatos ao governo do Estado do Rio de Janeiro. Aquela figura que lembrava um Don Quixote hippie desandou a falar como se estivesse sendo perseguido por conspiradores.
“Acho que chegou num limite. Não dá mais para esperar a reforma política. É o que percebo após tantas celebridades toscas eleitas para as boquinhas nas assembléias legislativas e no Congresso Nacional. Não é a toa que a função foi chamada de dePUTAdo...”
Surpreso pela avalanche do desabafo, comentei:  
- É uma piada de mau gosto dos eleitores que querem sacanear, ou a prova de que a ilusão dos ignorantes se superou mais uma vez. Talvez os dois!  Respondi na intenção de ser simpático, afinal, é raro encontrar pessoas assim no meio daquela massa de cabos eleitorais e curiosos com maquininhas fotográficas na mão.
Continuou ele: “Que os filhos da puta se elejam, não é novidade. Mas as mães deles com nomes de frutas... Porra, aí é pra fudê. O picadeiro do circo legislativo ganhou novos horrores. E tem até analfabeto eleito por neguinho alfabetizado!!”
Pensei: Por trás disso, a implosão da família, das virtudes, a falência das escolas, os maus exemplos na mídia que diariamente realimenta os pecados capitais. Estamos colhemos o que plantamos. Lei comum à física e à religião... Me vi concordando com o sujeito!
O cara se empolgou diante de meu silêncio complacente:
“Camarada... Pão e circo conseguiram mais uma vez deixar as coisas como estavam. Apenas metade do Congresso Nacional se renovou. Vai ficar a merma merda! Os partidos de apoio ao governo atual são maioria. Aliás, pra que precisamos de mais de quarenta partidos já que as ideologias que apregoam foram pulverizadas? Dois partidos bastariam. Situação e oposição.”
De fato, as exigências para conquistar um cargo público através de concurso são enormes. Mil obstáculos. Por que não valem as mesmas regras para os cargos políticos, disse eu.
Ele foi em frente: “Aeee... Tu tá ligado! O TSE poderia exigir avaliação dos currículos acadêmicos dos candidatos. Presidente deveria ter doutorado. Governadores e prefeitos, mestrado. Deputados, pelo menos um curso superior e pós-graduação em administração pública e principalmente, ética. Eu fix minha parrrrte... Sou sociólogo, mas não labuto na parada. É coisa pra maluco!”
- Ah, sim... Mas que parada? A política ou a sociologia?
- “Parada é parada, cara. Política parada, estagnada, amordaçada. The sociology runs into the future. Bróder, o voto é tremendamente injusto. Acho que só deveria ter direito ao voto unitário, o eleitor que atendesse a uma série de exigências.”
- Como assim?
“Tipo assim... Impostos em dia, CPF sem restrições e ficha limpa na justiça. Para os demais, o voto valeria menos. A cada exigência não atendida, haveria desconto. Deflação do poder de voto. Zero vírgula nove... oito... sete... seis...  Se o cara é Mané, bandido, o voto dele vale zero. É só o governo se organizar. Tipo assim... Receita Federal... Sacou? Dessa forma, os políticos seriam eleitos pelo trigo e não pelo joio.”
- Mas isso é pouco democrático. Os direitos são iguais para todos, prega a constituição.
E o magrinho foi adiante: “Nada que uma PEC não resolva. E que democracia é essa com voto obrigatório? Conversa pra boi dormir. E a boiada dorme no meio do vício, iludida, para a alegria dos ditadores aliados aos grandes grupos empresariais, patrocinadores de caixa dois. É deles o país, independente de quem venha a vencer no segundo turno presidencial. E segue a panelinha. Aliás... O caldeirão com novos ingredientes, mas o mesmo cheiro de dobradinha. Fui!”
E aquela figuraça saiu de surpresa, do mesmo jeito que tinha chegado. Minha primeira reação foi rir. Mas pensando bem, até que o cara tinha lá sua razão. O brain storm bem poderia envolver outras cabeças pensantes que repousam no ócio e se omitem diante dos nós do sistema corrupto. Pra falar a verdade, no dia em que a maioria de nossos políticos pensar como aquele sociólogo magricelo, preocupado com o bem público em vez do privado, por certo teremos um Brasil mais justo. Mas por enquanto, isso é papo de maluco.

domingo, 26 de setembro de 2010

O Rádio III

Sabe aquela sensação de encontrar uma cédula de dinheiro perdida no bolso de uma roupa aposentada no armário? Foi mais ou menos o que senti ao reencontrar minha primeira revistinha de eletrônica, oculta inadvertidamente durante muitos anos, entre velhos livros de filosofia. Além da boa surpresa, encontrei certa lógica neste acaso. Daqui a pouco explico esse “insight”. Pois a tal revistinha fazia parte de uma coleção lançada nos anos 80 pela “Editora Saber”. Trazia o título “Experiências e Brincadeiras Com Eletrônica.” 

O autor era Nilton C. Braga.  Muitas vezes aproveitei o troco do pão para investir naquele conhecimento. Desfolhei a antiga revista e encontrei projetos “sensacionais” como as pilhas feitas com limão ou moedas. 


Imagine só, poder montar em casa, com meia dúzia de peças, um “timer” que utilizava o então moderníssimo circuito integrado. Uau! Mal comparando é como se hoje, um garoto de 14 anos tivesse nas mãos as peças e o passo-a-passo para montar em casa um iPad.   Naqueles dias, eu já havia convencido meu pai de que merecíamos ter um ferro de soldar na caixa de ferramentas. Para quem não conhece, trata-se de um tubo de metal com uma resistência elétrica por dentro e uma ponteira de cobre. Ligado à tomada, ele aquecia e derretia a liga de estanho que fecha o contato elétrico. Ainda hoje é assim. Alguns leigos no assunto chegam a pensam que o tal soldador poderia ser usado para colar pequenas peças metálicas quebradas, como de relógios ou óculos...  Um equívoco. 

O “Timer” da revistinha tinha a tarefa de desligar um radinho de pilhas após prévia programação de tempo. Atualmente, qualquer camelô vende um aparelho destes por menos de 10 reais, mas na época, o “timer” era inovador e genial. Continuei desfolhando a velha revista. Algumas páginas adiante, revi o projeto que de fato, lembro de ter colocado em prática: Um transmissor de FM com microfone. Ah, como me diverti com aquele protótipo montado de forma improvisada dentro de uma lata de sardinha com tampa de madeira! Com algumas adaptações, consegui ligar meu gravador k7 naquela geringonça e colocar NO AR, minha mini estação de Rádio com 50 metros de alcance.  

Foi com aquela “latinha” que dei início aos meus ensaios de locução radiofônica. Ah, sim... Sobre o “insight”... No começo da década de 80 a eletrônica digital ainda engatinhava no Brasil. O computador estava longe de ser um eletrodoméstico. Figurava-se como algo inacessível. Uma inovação guardada a sete chaves em instituições norte-americanas como o Pentágono, a NASA e algumas universidades de ponta. A tecnologia já havia dado início a sua revolução que abalaria as bases ideológicas do mundo. 

E aqui explico o meu “insight”... Aquela revistinha de eletrônica analógica primitiva, perdida entre livros platônicos e socráticos deixou seu recado. A tecnologia nos impulsiona para a compreensão do que existe de oculto no mundo das idéias soltas no ar. Aos 14 aos, de forma tosca e experimental, eu começava a descobrir este fantástico universo e como me comunicar através dele.