terça-feira, 3 de setembro de 2013

pipas brancas não voam mais

O fim do inverno traz novos ares de alegria. Recordações de divertidas primaveras no meu tempo de guri. Nos anos setenta, as compras não vinham em saquinhos plásticos ecologicamente incorretos como hoje, mas em embrulhos de papel amarrados com linhas grossas de algodão. Aquela embalagem servia para carregar roupas, remédios, alimentos. Desfeitos os embrulhos, o cordão e o papel não iam imediatamente para o lixo. Na prática e de forma inconsciente, os moleques da época já experimentavam a sustentabilidade.

Os cordões e papéis eram reaproveitados no brinquedo favorito: A pipa. No Rio Grande do Sul chama-se “pandorga”. Não comprávamos os brinquedos prontos. Fabricávamos em casa. Dos embrulhos desfeitos, eu pegava os papéis encerados de pão, mais resistentes do que o papel jornal. A estrutura da pandorga era de varetas finas de taquara (bambú), amarradas com os cordões dos embrulhos. O papel era colado nas varetas com grude, cola artesanal feita com farinha de trigo. A água misturada ao glúten formava o gel viscoso que bem substituía a cola Tenaz.

A pandorga também tinha um rabo, feito de retalhos de pano. Era o peso dele que mantinha o brinquedo estabilizado no céu. Paradinho. O papagaio só decolava em dias de vento forte, o que era comum no clima temperado do sul. Uma brisa, não servia.  

Uma vez no céu, a pandorga despertava euforias. Para os mais racionais, o sucesso de um projeto bem elaborado e executado... O requinte tecnológico era o “roncador”. Um pedaço de papel solto de um lado e preso a uma linha do outro, que tremulava e emitia um ruído forte cada vez que se puxava a pandorga com força. “vruuummmm... vruuummmm”. Parecia um pequeno motor!  

Para os mais emotivos, a posição privilegiada da pandorga estabilizada no ar despertava variadas divagações. A possibilidade de voar...  A curiosidade em ver a paisagem do alto...  A própria estrela sob domínio da mão... A imaginação querendo arrebentar a linha e seguir para além do horizonte...

O que menos passava em nossas cabeças infantis era guerrear! Uma pipa derrubar a outra? Isso não era brincadeira de bom gosto nem inocente. As pipas brancas (todo o pão vinha em papel branco),lado a lado. Cada uma com seu sonho respeitoso! E a paz era garantida pela linha de algodão. Puro. Sem misturas. Os cordões dos embrulhos eram emendados uns aos outros. Só quem possuía melhores condições financeiras podia comprar um rolo inteiro, com 100 metros de linha nova.

A gurizada do meu tempo não achava graça em destruir o brinquedo do outro em guerras de pipas com linhas cortantes. Isso não existia no meu grupo de amigos e não lembro de ter visto tal brincadeira perigosa durante minha infância no Rio Grande do Sul. Era um tempo de pais presentes, sempre alertas às nossas possíveis inconsequências.

Logo que me mudei para o Rio de Janeiro, há vinte anos, percebi que as pipas daqui eram diferentes no jeito e no conceito. No clima subtropical venta menos.  As estruturas são bem menores, mais leves, coloridas e inquietas. Mas o que mais assusta é o uso frequente da mortal linha cortante. Nas áreas mais pobres da cidade, me assombrou ver o céu infestado de pipas conduzidas não só por crianças mas por adolescentes e até adultos viciados em infância... E algo mais!


Hoje. sempre que um ciclista, motociclista ou “homem asa” vira notícia após ser degolado por uma linha assassina, aumenta minha certeza de que as pipas não são mais pacíficas. O tempo de ingenuidade voou para longe, emaranhado no rabo de pipas perdidas em dia de vendaval. Foram pervertidas pela violência. Viraram armas no meio dos "pipas voadas". Uma “peça” perigosa que dispara navalhas perdidas. 

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